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| Manifestantes enfrentam a polícia no centro da capital ucraniana, Kiev, em 19 de janeiro de 2014 (AFP, Anatolii Boiko) |
Kiev — Confrontos foram registrados neste domingo ao fim de um
protesto em Kiev que reuniu cerca de 200 mil opositores pró-europeus e
desafiou as autoridades, após a adoção de novas leis que reforçam as
punições contra os manifestantes. Depois de um dia que terminou
com vários veículos incendiados e mais de 100 feridos, o presidente
ucraniano, Viktor Yanukovich, prometeu criar uma comissão
multipartidária para pôr fim à crise política que afeta o país, anunciou
o líder opositor Vitali Klitschko, após uma reunião com Yanukovich. "O
presidente se comprometeu a criar na segunda de manhã uma comissão com
representantes da administração presidencial, do gabinete e da oposição
para buscar uma solução para a crise", disse Klitschko, após mais um dia
de violentos confrontos entre manifestantes e policiais. Quando a
mobilização na Praça da Independência, também chamada de Maïdan,
chegava ao fim, alguns manifestantes tentaram romper um cordão de
segurança para chegar ao Parlamento e entraram em furgões da polícia que
bloqueavam o acesso. Eles incendiaram duas viaturas e cinco
ônibus, enquanto jogavam pedras nos policiais. As forças de segurança
responderam com golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, além
de jatos d'água. Segundo os serviços médicos, 24 pessoas ficaram
feridas, e três foram hospitalizadas. A polícia estimou em 70 o número
de agentes feridos. Quatro ativistas foram detidos, informou o
Ministério do Interior. Antes de se reunir com o presidente, o boxeador e líder da oposição Klitschko havia pedido calma à multidão. "A
violência leva apenas um banho de sangue", declarou aos manifestantes
Arseni Yatseniuk, responsável pelo partido da opositora detida Yulia
Timoshenko, pedindo que não cedessem a provocações. Antes, por
volta de 200 mil pessoas haviam participado pacificamente das
manifestações na Praça da Independência. Os ativistas desafiaram as
autoridades, depois da proibição de qualquer ato público no centro de
Kiev até 8 de março e das novas leis promulgadas na sexta-feira pelo
presidente Viktor Yanukovytch, que introduzem ou reforçam as sanções
contra os manifestantes. Dezenas de pessoas usavam capacetes,
caixas de papelão, ou máscaras carnavalescas, em sinal de desprezo a uma
das novas leis, que pune as pessoas que protestarem mascaradas, ou com
capacetes. Neste domingo, no fim do dia, a embaixada dos Estados
Unidos na Ucrânia divulgou um comunicado, pedindo ao governo que inicie
imediatamente negociações "com todas as partes, para terminar com o beco
sem saída político atual, responder as preocupações dos manifestantes e
impedir que a violência aumente". O embaixador da União Europeia na Ucrânia, Jan Tombinski, pediu que "não agravem uma situação já muito difícil e perigosa". "A nova legislação é ilegal" "Nós
declaramos ilegal a nova legislação adotada", declarou Klitschko, líder
do Partido Udar (Golpe), em um palco instalado na praça. Ele pediu que as forças de segurança se unam aos opositores. "Peço às forças de ordem: passem para o lado do povo!", lançou. "O
Parlamento perdeu sua legitimidade. Isso significa que devemos criar um
conselho do povo entre os políticos opositores", afirmou Arseni
Yatseniuk, integrante do partido da opositora Yulia Timoshenko. Mas alguns políticos foram vaiados pela multidão, acusados de não terem um plano de ação e um verdadeiro líder. Depois
de o movimento de contestação ter conseguido mobilizar centenas de
milhares de pessoas em dezembro, ele perdeu força após a assinatura, em
17 de dezembro, em Moscou, de acordos econômicos que forneciam um
crédito de US$ 15 bilhões à Ucrânia e reduziam o preço do gás russo em
cerca de um terço. "Precisamos passar a ações mais decisivas", disse à AFP o estudante Ruslan Kochevarov. "Esperamos
que, depois das manifestações, as pessoas não parem, mesmo que muitos
se perguntem por que se mobilizar no futuro depois de dois meses de
protestos sem resultado", acrescentou. A adoção das novas leis repressivas pode dar mais vigor aos protestos. Os
textos, votados em meio a cenas de caos no Parlamento, estabelecem
penas de prisão de 15 dias - pela instalação de barracas em locais
públicos - a cinco anos - para as pessoas que bloquearem prédios
oficiais. Uma lei pune com multas, confisco de carteiras de
motorista e apreensão de carros qualquer manifestação envolvendo mais de
cinco veículos. Um outro texto obriga as ONGs beneficiadas com financiamentos ocidentais a se registrarem como "agentes do exterior". Esse
termo, usado para definir os opositores na época do líder soviético
Josef Stalin, tem sido mencionado com frequência para denunciar os
manifestantes na Rússia de Vladimir Putin, que adotou uma lei semelhante
em 2012. Os ocidentais alertaram as autoridades ucranianas para estes textos, e Timoshenko denunciou a instauração de uma "neo-ditadura". O
ministro das Relações Exteriores sueco, Carl Bildt, um ardoroso
defensor da aproximação entre Ucrânia e UE, disse à rede de televisão
ucraniana hromadske.tv que os europeus haviam discutido com os americanos sanções contra algumas pessoas do governo. "Nós
falamos sobre isso com os americanos. Isso tem a ver, antes de tudo,
com a questão da violência. Nossa posição exata é de que a violência não
deve ser empregada contra os participantes pacíficos de manifestações",
declarou, acrescentando que os contatos estavam sendo mantidos. Fonte: AFP
20-01-2014
